Ainda uma dúzia de dias atrás, espreitavam maneirinhas, quase envergonhadas e melindradas na janela do sol que rompia por entre a folhagem...
Estava na minha aldeia, sem pressa de regresso, com pena de perder uma das coisas mais belas, as cerejas pintando na sua puberdade aquele rubor de menina apaixonada que ela sabe que nos prende.
Cada cerejeira, aquelas das mais antigas, estão marcadas, ate pelo nome, cerdeira.
Fulano tem a cerdeira cheia de silvas e os malandros não podem subir o tronco. Caramba, desafiar putos que iam provar a caroça, as cerejas mais temporãs...raio de donos, "Deus lhes desse uma caganeira", não foramos nós, vinham os melros e outros iguais, rapinar.
Como andavam altos, apenas eram amaldiçoados, mas la íamos lutando pela vida, melhor, subindo a cerdeira ate sermos apanhados.
Contam "romances da aldeia" que certa pessoa, encavalitada e regalada numa destas, tripa forra até estourar, ouviu o ribombar de uma voz de trovão, o dono, "quem és meu malandro que te fisguei, sabes quem sou...".
O puto, ainda vão afirmando ter sido eu. Mentira, se bem que era capaz de tal, de responder ao dono aquilo que ele ouviu: "as cerejas do Chico Balas, comem se duas a duas, as que estão na barriga são minhas, as que estão na cerdeira são tuas".
Bom, bom, era mesmo esperar pela noitinha, fria a pedir fogueira e borralho, e a "revoada de pardalitos" vendo o dono cansado depois de ter perdido meio dia de "espera", voltar aos seus afazeres. Não mediamos tempo nem consequências, éramos inocentes...
Menos maus que os verdadeiros pardais a quem os donos amaldiçoavam como a causa dos seus danos...
Era tão bom ir roubar cerejas!
Hoje comprei para provar, portuguesas, num mini do Bangladesh...