Tinha tanta coisa naquela cabeca tonta de crianca, aventuras e desventuras que pensava que as podia escrever, embora escondido. Escondido pela malandrice, pois claro, feitas sem piedade e ainda por cima com o comparsa Farrusco, que me soltava a letra, mais a preceito que eu escrevia.
Boa dupla, um nem ladrava, rosnava, o outro nao escrevia, rasgava.
Deixa Farrusco, ninguem sabe quem somos e tu ficas calado, por vezes acho que falas demais pois a partir de hoje vamos contar algumas das boas. Nao rias malandro...pior que eu!
Tu nao ajudavas nas tarefas maleficas, nao refiles, claro que ficavas de atalaia. Pronto!
Olha, vamos contar...
Daquela vez tinha caido um nevao la na aldeia. Melhor, continuava a cair e tinhamos mesmo assim de arreliar alguem e com as pessoas encolhidas em casa, nada melhor que o vizinho proximo e se melhor o pensamos, melhor o fizemos.
Para de me lamber Farrusco, parece que estas a reviver. Estamos velhos os dois, mas valeu a pena, caramba.
Enchemos e sem ninguem dar conta, na palheira um espantalho de palha que tinhamos roubado uns dias antes numa horta, com chapeu e tudo. O do meu pai e por ele paguei no lombo...
Nao te rias, rafeiro!
Colocamos o espantalho mesmo frente a porta de entrada do vizinho...ocultemos o nome, com um cordel amarrado aos pes, de modo a que um simples esticao o tombasse.
Era um daqueles dias de inverno, como poucos e o vizinho nem o galinheiro guardava, pudera as galinhas nao iam sair mas nos, como se tu fosses gente, enfim, podiamos la entrar e roubamos duas.
A neve ja nos chegava acima dos pes, patas para ti, nao te empertigues cao velho...
E chegou a coisa mais abominavel.
Ja tinha aprendido a colocar as galinhasa dormir, na boa.
Bastava embalar a senhora carinhosamente e levantar a asa direita e dentro dela enfiar a cabeca e depois, embalar, embalar...ja estava a sonhar com o galo...
Com a outra igual. Ambas deitadinhas na neve, mesmo em frente da porta de entrada do vizinho.
Farrusco, tu seguras o cordel e quando eu disser, puxas, agora vou atirar umas pedras na porta.
Tal foi. O dono abre a porta incomodado e ao ver as galinhas pensadas mortas, Deus nos acuda.
Tu Farrusco ficaste em euforia, parecia gostares e puxas o cordel e o nosso querido vizinho ao sentir que lhe vinha em cima um homem, desmaiou.
Ficamos por aqui e agora, Farrusco, pois se dissermos que veio o povo em peso...
Aquele nosso cantinho, ninguem descobre.