domingo, 30 de outubro de 2016

COISAS DO ARCO DA VELHA

A história que vou contar, contou-me certa velhinha numa noite de luar, nas cinzas da última pinha, remelosa que teimava em se apagar, porventura desvairada pelo vento que descia da chaminé.
Renitente a velha, foi metendo mais uns galhos secos na lareira e à cautela, foi entrapar as janelas.
Começavam a bailar as primeiras farripas de neve e a canalha dela, dormia esparramada por bem tratada. Meteu uma cavaca de carvalho, sinal de que a coisa  prometia...
Eles, os homens, tratavam da vida nas serranias, trazendo os últimos fenos e animais para a aldeia, acoitados de noite nos casebres de granito para o gado comer de dia as últimas restéas de feno que a geada queimaria.
Pronúncio da miséria do inverno, a ferocidade da sobrevivência...o homem e a fera.



Houve um senhor que tinha um rebanho pequeno que pouco ganho lhe dava, ou nenhum, digamos,assim titubeava o raio da velha que não calava a matraca,mas sabendo que conhecia a serra e os seus segredos, pára, e escuta...
O Ti Zé das Lareiras tinha quatro ovelhas e duas cabras.Andava por ali na serra de São Pedro, por vezes descia aos Cuvos. Sabia da vida dele, tipo eremita que por vezes descia a aldeia para procurar mantimentos e fósforos, entre outros...
Vivia no dia a dia da caça, na guerra da disputa daquilo que o alimentava,caçava uns coelhos ou rolas, sabendo que o inimigo, o lobo, lhe disputava as presas.
A velha que tal me conta, jura pela alma dos mais chegados  que foi lá um dia um dia de manhâ.
Agora duvido da história.
Contava-me ela, com as brasas apagadas, que havia um lobo morto e um coelho apanhado., 
Por quem, dona Piedade, perguntei...
Foram os Mafarricos!

terça-feira, 30 de agosto de 2016

NASCEMOS FAZ HOJE TRÊS ANOS...

Estás a escrever sobre nós? Matreiro e vaidoso no seu olhar embevecido, sinto a pergunta, pois madura é a nossa cumplicidade, afinal tanto vivemos, ele em parte guarda a minha vida, eu retribuo.


Fez dieta o "malandro" nas suas férias clandestinas, tal como antevi, pior as mazelas, marcas profundas no corpo de mordidas de defensores dos seus territórios.
"Mulherengo"...ainda bem que cheguei a tempo de te tratar,


És um ícone da aldeia.
Mal o sino da aldeia toca as "entradas" para a missa e/outras cerimónias, o teu uivar pungente e sem graça, incomoda, pelo menos o meu despertar, cala o cantar do galo, coisa de menos, pior o ladrar para a raposa matreira noite adentro
Tal como neste final de Agosto!


Nestas fotos tiradas na serra, andavas comigo, lembras?
Claro, aquela história em que procuravas a tua família, sem perderes a crença e que valeu os encontrares descendo as serranias de S. Pedro.


Provei e adorei os melhores bolos de azeite, feitos de modo único e genuíno.


Na mão do mestre do forno, o tio António Carau


Nestes três anos passamos muito. Frio e calor, amuos por vezes, mas no fim, unidos.


Numa mão cheia de riqueza.
Pedaços de vida.
Num bem haja agradecido.


Estes, os lobos, quase acabaram como por aqui contamos, com a tua família, mas sabes que gosto deles e da sua vida tratam.
Raio do ciclo da vida...


Forte e valente, as gentes da nossa terra!


A minha maior tristeza, é quando me venho embora de féria tal qual as andorinhas e tu ficas tristonho, mas agora vou mais amiúde... Não fiques triste, afinal fazemos anos!!!.


Queres melhor que guardar serras e ribeiros, terras tuas?
Mereces!

terça-feira, 26 de julho de 2016

O FARRUSCO DE FERIAS?

Decorrido quase um mes em que andava apoquentado pelo seu desaparecimento, o malandro deu noticias. Ingrato, Foi tratar\das ferias que nunca teve, dizia num simples rascunho e ia ver o mar.
Que se lixe e se desenrasque,  sozinho vai voltar um bacalhau, se voltar....



Ainda gozou com as vestimentas, como se fosse muito importante, o safado do cachorro!


Se calhar devia ir ter com ele. Que faria um louco sem outro porventura pior?
BOAS FERIAS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

quarta-feira, 13 de julho de 2016

EU VIM DE LONGE...

EU VIM DE LONGE...


Surgimos das sombras escuras como seculos atras.
Fidalgos bravos, famintos de gloria, desbravando o impossivel para os outros, sem claudicar e cantando que: 


"Eu vim de longe
de muito longe

o que eu andei p'ra'qui chegar
Eu vou p'ra longe
p'ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p'ra nos dar".



É uma casa portuguesa com certeza!
É com certeza,uma casa portuguesa!

OBRIGADO, MEU PORTUGAL!

domingo, 26 de junho de 2016

TOQUE A FINADOS...

Jamais algum dia pensei que um sino tocasse a dobrados por si proprio, num chorar para dentro, logo ele, o sino da minha aldeia .
Vetusto, badalou alegrias em bodas, alarmes nos fogos e tristezas nos enterros.
Como era bonito o seu eco pelas quebradas que se desfaziam de forma sublime e aos poucos pelas serranias alcantiladas...

Um relogio do tempo para os lavradores e resineiros, uma companhia que media a curta distancia da aldeia, apesar de longa e dolorosa.
Nos domingos e dias festivos, as pessoas corriam desenfreadas nos preparos das vestimentas em conformidade com os toques das entradas para chegarem a tempo, pois tal mal pareceria...
Os tempos  agora, esqueceram os outros tempos e os padres aparecem quando podem, coitados e a horas escolhidas. Disso eles sabem, mas o sacristao que ajudava a missa e tal acolitava, saiu de cena.
Agora o sino por enquanto imponente, espera que o caruncho o leve de badalo solitario para o cemiterio.
E o meu Farrusco que uivava ao toque para a missa e trindades, anda cabisbaixo tal como eu.
Nada como dantes...

sábado, 4 de junho de 2016

VAMOS ROUBAR CEREJAS, FARRUSCO?

Que ano mais estranho!
Chuva, frio e um Deus nos acuda, clamam em penitencia por algo entranhado nas suas almas, as gentes da minha terra.
No Maio, era por tradicao os garotos irem tais como pardalitos, invadir as cerejeiras e as engolir 
mesmo com carocos, nao fosse o dono aparecer, a gente, nos, cortavamos umas pernadas, faziamos cahos em ramos, encavalitados no tronco armadilhado com silvas para nos assustar, mas depois dos bolsos enchidos, abalavamos no gozo supremo.

Sempre comigo o amigo e companheiro Farrusco, Triste por nao ouvir falar de cerejeiras carregadas e pior aquando soube que apenas tinham folhas e foi esmorecendo. Um ano sem aventura e penso eu, entrou em depressao, tal como eu para tal me via a caminhar e os da idade.
Mas, uma semana passada, o tempo veio escaldante e arrepiamos, quase um milagre, ate o cuco cantava mais vezes e alto. Algo se passou com o canito, se calhar destranbolhou.
Desapareceu nesse dia inteiro, porventura nos seus devaneios, tal pensei, pois ele gostava de meditar acerca da vida e chegou suado, mas feliz.
Gozou folgado da vida e mereceu por tal uma mangueirada para o aquietar e ouvir...


Malandro, vim a perceber depois quando me levou ferrado pelos fundilhos da calca, de modo discreto, convenhamos, para o lugar dos Carregais.
Do meu avo paterno herdei o nome de Francisco que abominava que nos tratassem por Chico, dizia que este era o diabo, mas fosse ou nao, aquela cerejeira, encostada a uma figueira de figo preto, havia escapado a esta calamidade e o Farrusco, sabio, a encontrou.
Trepei por ela acima e foi um fartote para gaudio do meu companheiro, mas eis senao quando...
Mais esperto que os dois, aparace o meu avo, danadinho para uma valente tareira que remediasse a coisa.
O fim do mundo, pensei, pior quando vejo o Farrusco escondido por detras de um pinheiro. Aqui morro, tal pensei e por tal maldita cerejeira a bical, me encomendei ao meu destino final e de olhos fechados me rendi...

"As cerejas do Chico Balas
Comem se duas a duas
As que estao na barriga sao minhas
As da cerdeira sao suas".

Fui salvo pelo escarnio, mas se apanho o cobarde do Farrusco...