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| Seminário de Gouveia |
Estava a findar o tempo da meninice, a escola primária terminaria daí a dias para quem ficasse aprovado no exame da quarta classe. A maioria já tinha o destino marcado, trabalhar no campo a tempo inteiro, para os seus ou para outros, ajudando às despesas do dia-a-dia.
O meu já estava também traçado, iria para o seminário!
Um padre amigo da família e eles próprios tal haviam decidido e eu como pouco percebia de vocações, pouco me ralava e ainda faltava o exame da primária.
No dia do exame lá fomos até Aguiar da Beira, sede de concelho de Forninhos, fazer o "tal exame" uns melhor preparados em estudo que outros.
Era dia grande para as famílias e para nós, com roupa a estrear, caneta de tinta permanente nova, que mal sabíamos usar e muito nervoso à mistura. Prova escrita e oral, que metia rios, linhas férreas, províncias do ultramar, além do "demónio" que era o ditado. Passei com distinção, mas quase metade ficou pelo caminho e não voltaram à escola, o trabalho já chamava pelo corpo.
Claro que houve festa e até nos deitaram foguetes, além dos tostões que tios e padrinhos nos davam. Estávamos uns senhores e já ricos, com dinheiro no bolso!
Volta e vez, pensava no seminário e porque teria de ir para lá, caro para as posses dos meus pais, ficava longe, na Serra da Estrela e só voltaria à terra e aos amigos nas férias. Parece que ficava bem ter um padre na família sempre tão ligada à igreja. Havia que gozar os três meses que faltavam, em total liberdade, agora que já tinha o estatuto de estudante, mas o tempo voou e chegou o dia.
Na mala já ia o enxoval, tudo com etiqueta cozida com o nome.
Manhã cedo, no carro do meu tio António e tia Helena, mais a minha mãe e pai, lá arrancamos para a viagem. Era o início de Outubro e à saída da aldeia ainda vi a malta da minha "tribo" a surripiar castanhas de castanheiros com dono e eu enfiado num carro a caminho de ser padre. Comecei a sentir uma espécie de angústia. Ou se calhar revolta.
Por mim saía já ali, mas começaram a elogiar o seminário, que era muito bom, dos alemães, novo e com campos de futebol e piscina. Nem se usava fato de seminarista, vestia-se à civil e assim, entre curvas e contracurvas, passamos a vila de Gouveia, hoje cidade e subimos mais um pouco em direcção à serra.
Pára o carro passada a entrada e fiquei colado ao assento, aquilo era gigantesco, com andares, jardins e freiras e padres por todo o lado com ar feliz.
- Meu Deus, pensei, será que morri e vim parar ao céu?
Lá entramos entre sorrisos e cumprimentos de boas vindas em direcção à recepção para cumprir os formalismos. O passo seguinte seria mostrar as instalações e a camarata aonde iria dormir por muitos anos.
Parecia que estava atordoado e só acordei quando começo a ouvir choros e mais choros, eram outros como eu já na despedida. Parecia que tinha cola nos braços, então ia ali ficar sózinho?
Ainda vejo a traseira do carro em direcção a Gouveia e o braços a acenar, estava incrédulo, afinal tinha vindo parar ao inferno, apesar de uma freira simpática me consolar.
Solto-me do braço da freira e foram apanhar-me meio quilómetro depois.
Continua...