segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Espelho de Natal

 Almas penadas dum Portugal nuclear, todas as personagens dele ardem nas suas páginas como nas labaredas simbólicas de qualquer nicho dos caminhos. Por isso, de mãos erguidas, imploram de quem passa o piedoso silêncio que preceda um acto de respeito e de compreensão. Respeito pela sua medida, que é humana, e compreensão pelos trâmites das suas acções, que foram terrenas. 
" Miguel Torga Coimbra, Setembro de 1952"


Por detras,uma "moderna" paragem de camioneta a que os mais velhos aquando ela passa, chamam de carreira . Sentam e conversam nesse dia sagrado acerca das suas maleitas, como que combinando o que de queixas ditas e escondendo as verdadeiras por medo das receitas.
Dia 24, fazia frio, mas um frio quente que sem o "cair" da geada, tapava o vidro da paragem incomoda em que se reflectiam rostos e chamas escaldantes de muitas almas e poucas gentes.
     

sábado, 19 de dezembro de 2015

Contos de Natal

Como se nao bastasse o Farrusco e depois o seu pai, o Miseravel e duas presumiveis manas, eis que chegam as convidadas. Abusadores da sorte de nao ficarem ao relento, pelo cheiro das guloseimas, porventura.
Abusaram de mim e ocuparam o meu comodo lugar, exigindo contos. Uma coisa assim...
Mas como resistir. Pronto, digo eu embevecido naqueles olhares gulosos e bem nutridos...




Era uma vez um homem que vivia do comercio. O homem andava de um lado para o outro a vender os seus produtos.
Naquele dia , ele nao vendeu nada e voltou para casa. No caminho de volta, ele olhou para o horizonte e viu uma estrela muito brilhante e grande. Chegou a casa e sentiu uma irresistivel vontade de seguir a estrela. Despediu-se da familia e começou a sua caminhada atras da estrela. Levava pao, agua, vinho, uns bolos e dinheiro para o que fosse preciso.
No caminho que seguiu, passou por uma cidade e la comprou um jumento para carregar as suas coisas. Estava muito cansado.
Passado um pouco, viu um homem rico a sua frente e este disse-lhe:
- Ja te vi aqui, nao es comerciante?
- Sou, respondeu o homem que seguia a estrela, mas agora nao tenho nada para vender.
- Nao tens ao menos um pao? a minha criada hoje faltou e nao temos pao em casa.
- Tenho aqui um pouco, disse o comerciante, serve?
- Serve sim, Toma la esta bolsa, disse o homem rico, atirando uma bolsa para a beira do comerciante - obrigado!
- Obrigado eu, disse o comerciante.
O homem rico la foi para casa e o comerciante abriu a bolsa e viu que estava cheia de dinheiro. Mas no deserto, o comerciante foi assaltado e so ficou com o jumento e alguma comida.
Passados alguns dias, chegou a Belem. Continuou a seguir a estrela e viu uma gruta com um menino numa manjedoura e cinco pessoas: os tres Reis Magos, Nossa Senhora e Sao Jose.
Os Reis tinham chegado havia pouco tempo e o comerciante, como nao tinha mais nada para oferecer, deu o jumento e pareceu-lhe que o Menino sorriu.
Quando os reis Magos, ofereceram oiro, mirra e incenso, ja nao lhe pareceu ver o Menino a sorrir.
E entao chegou a uma conclusao:
O dinheiro nao traz toda a felicidade.
O comerciante voltou para cada e sentiu-se muito feliz.

Ficaram comovidos, nas serranias faltam estorias e a vida era dura, diziam os seus pais que os haviam carregado ate aqui!

Gostavam de ter quem tal lhes contasse.
Perguntaram se alguem me contava coisas de Nata e respondi que sim, a minha mae e sobretudo a minha avo Maria a quem havida feito tempos idos um versito...
Conta!!!


Dormia com a minha avozinha,

Debaixo de quatro mantas,
Acordava tao quentinho,
Mas saltava p'ra cozinha,
para ver o sapatinho.

Sempre houve qualquer coisinha,
Conforme o que se podia,
Era dia de Natal.
Diferente era a alegria.

A seguir estremunhado,
Espreitava pela janela,
Tanta neve na Matela,
O lameiro do Ti Esmael,
Era farinha de moleiro,
Tal a brancura infinita,
Que cobria o meu Outeiro.

O fumo das chamines, 
Ainda o galo cantava,
Acordava a freguesia,
E Jesus rejubilava.

Um Santo Natal para todos, do fundo do coraçao.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Barco ao fundo na serra....

O linda Serra da Estrela
Toda coberta de neve
O nascente do Mondego
Que das agua a quem a pede


Agora posso rir por ter o direito de tal me apetecer e poder brincar com coisas vividas de formas estranhas aqui neste recanto, mas que exponho no meu modo vagaroso de tais poder tal desfrutar.
E rio com muita magoa a "alteza" de um seminario que poucos ou nenhuns padres "fabricou'. Eramos empurrados pela familia, pois tal era porventura mais importante ter um filho padre que medico. Valencia, as almas...
Gentes de Lisboa, ali com  raizes senhoriais herdadas, alinhavam os fedelhos com fraldas bem  cheirosas  apesar de mal largadas, contrariando o odor das ceroulas por vezes remendadas dos residentes nativos de aldeias circundantes cujos pais, simples e honrados lavradores e com dinheiros por vezes emprestados e empenhados,  dos pagavam o mesmo que os "meninos".
E os padres recebiam por acrescimo as "peitas" sob a forma de cabritos e queijos da serra, como se fossemos, como iamos no comboio, de segunda classe! Mas no regalo da gula, de primeira...
No primeiro dia senti o desiderato imberbe do mal desmamo que jamais os meus e outros pais considerariam no jogar as suas vidas e economias num projecto jamais considerado inocuo, mas serventis e agradecimentos de 'alguns" que por tal, levar um filho ao seminario, era uma benquerenca e favor divino.
Por la fiquei uns anos, meia duzia porventura, sendo que o que mais gostava e me alimentava o espirito, era o ser escuteiro e chegar a chefe da patrulha " Os Lobos".
No fim de semana e nos acampamentos, estava a minha espiritualidade, a minha terra vinha visitar as minhas saudades e reconfortava, fazendo esquecer aquele padre belga que me tentou assediar e lhe deixei um lanho bem cravado na cabeca. Os passos dolentes de freiras que iam desejar as boas noites aos superiores e os prefeitos apressados a desligar as luzes do silencio...
Falsidade e santa ignominia!
Um dia num acampamento junto da Lagoa Comprida, topo da Serra da Estrela, esqueci os ordenamentos do bem comportar e ser bom menino tal como os "ricos".
Na orla, tal como a da imagem, restava esqueletica e esventrada uma pequena barca que outrora deveria ser do guarda da barragem.
Metida dentro de agua, ainda se balanceava e por ali teria ficado, nao fossem os gritos de "Deus nos acuda" do padre e prefeitos, que apenas gritavam desvairados com receio de perder uma alma que nao a minha que ainda por aqui anda.
Tantos anos depois ainda me pergunto, como pode um barco afundar na serra?!!!

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Guardador de rebanhos

Tambem um dia em crianca guardei meia duzia de ovelhas por castigo.
Mas mais medo que dos lobos, imperava o frio.
E as farripas de neve que ele acartava pelas encostas abaixo.
Valia como escudo a cavidade dos penedos que sustentavam a fogueira fumarenta com lenha verde, 
que se mantinha a custo de canecos de resina roubada aos pinheiros e algumas pinhas molhadas.


"Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei da verdade e sou feliz."
Alberto Caeiro

sábado, 24 de outubro de 2015

POR ENTRE MISCAROS E CASTANHAS...

Um desmamar rude e violento aquando larguei as fraldas da mae, onze anos, quase uma vida.
Sim, que pelas nossas bandas ela comecava cedo e aos seis tinha o horario dos nossos pais.
E a gente tal como eles apeguilhava o pao com o conduto disponivel,  largando de seguida para os campos.
Cada altura do ano tinha o seu comprimento de horas e favores para mim impostos, pois se ate as vacas tinham descanso...
E o semear e plantar na primavera. E o chafurdar de pes encardidos por entre sulcos das hortas.
Mas havia chegada a hora de partir. Onze anos . Ja tido visto o mar e Fatima, um homem viajado, pois entao.
Andei de comboio pela primeira vez para ir estudar, mas aqueles rugidos que ele soltava acompanhados por nuvens de fumo e faiscas, como que me agoiravam o inferno.

Os amigos tinham ficado do outro lado do mundo, pinhais imensos quais fronteiras a separar, ao ponto de por instantes pensar que esse mundo jamais havia existido e tal voltaria a ver.
Um ano antes andavamos tipo alcateia de lobos a vasculhar as matas de pau afiado e sacola pendurada na procura dos miscaros. Sorte dos que ficaram por terem de ficar ou nao passar de classe.
A esta hora eram livres das suas horas vagas ou roubadas, pois o castigo dos pais pouco durava.
Todos gostavam dos miscaros, mas nao fosse a senhora professora saber... 
Mais tarde esta iria receber muitos saquinhos deles. Tal como agora, enfim. 

Duas semanas depois, vinham as castanhas, as primeiras e os ultimos frutos do ano, sim que os marmelos e a vindima era quase conjunta, mesmo que ainda estivessem meios verdes, pois senao quando viesse a passarada e os amigos do alheio...era uma vez!
Gostava tanto disto! Das primeiras vagas de vento e frio que abanavam os castanheiros e os meus avos e pais nos metiam quase de madrugada umas sacas de serapilheira para irmos apanhar as que haviam caido durante a noite. E era um gosto ver aquele fruto sair num arreganho de felicidade, mais ainda aquando na hora da ceia, estalavam no assador na lareira da casa.
Era enorme a dor da saudade e mais forte o apelo da terra. Nao estava habituado a casas com mais de um piso, muito menos coisas estranhas de rezar quatro vezes ao dia e...
Pouco mais de uma semana, fugi, mas fui apanhado dez quilometros depois.
Tive que me ir habituando durante varios anos, mas nesse Natal ainda comi em casa castanhas novas.

domingo, 11 de outubro de 2015

PALAVRAS DE AMIGO

Um dia  vais conhcer a minha terra, tal como prometido por ti!
Por tal aqui registo, tu que es um grande poeta de lutas e causas.
Por unas razones u otras los tiempos han cambiado, y ahora todo se realiza de una manera más mecánica y artificial. A veces recordando esos Tiempos se suspira por ellos y se piensa...¡¡¡Que Tiempos más buenos y plenos de armonía!!!
La Vida es así. Los Ciclos se van terminando y los Recuerdos se van extendiendo por nuestra mente, al igual que los dolores por nuestro cuerpo.
Dentro de poco tiempo volveré a publicar.
Siempre es un placer poder visitar tu espacio y saber nuevas de ti a través de tus comentarios...Eres un Amigo con letras mayúsculas y sabes que te aprecio un montón.
Abrazos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

VIDAS QUE O TEMPO VINDIMA

Olha, fora vivo o teu pai e a esta hora ja toda a gente aqui se tinha ajuntado.Que coisa, quase oito da manha e com pouca orvalhada, deviamos ir a caminho da vinha de Valongo. Muito faz a minha prima Agustinha, tua mae, anda "fina" o raio da mulher, mas sabes, a gente vai acabando e as pessoas falhando nas vindimas, hoje para mim, amanha para ti.
Aqui, aonde me tiras a fotografia, me encosto vai para setenta anos e quase sempre o primeiro a acordar com um calice de aguardente e uns mimos.
Sabes, primo, a familia vai morrendo, mas morrendo os amigos, acaba o mundo.


Agora somos gentes de outro mundo.
Acredita que tenho medo de ir para o cemiterio, nao da morte, mas por me poderem desenterrar e como dizem os doutores para estudos...
Eu e tantos quase nem aprendemos a ler. Mas damos cartas a qualquer um, assim aceitem o desafio.
Uns mal educados, outros muito bem vindos por virem por bem aprender com esta gente pobre, que nos somos. Mas honrados.


Que este mestre pintor nos cante o colorido da nossa vida, que teve mais alegre que triste e por tal me disponho a mostrar a minha mao, igual a tantas outras e o poeta nos pinte aqwueles cantares de outrora.
Vai guardando estas coisas, primo.
Conselho de um velho e acredita que ja nao posso voltar a vindima da minha prima.
As pernas ...


Este ano, o tio Porfirio "faltou", melhor, as pernas dele.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

MISERAVEL, O PAI DO FARRUSCO

Foi por esta altura das vindimas que o "Miseravel" apareceu ao cair da noite com malhas no corpo pelo descascar do pelo, coxo e alquebrado, porventura sedento e esfomeado.
Vinha de cima, do alto dos Valagotes e mal entrou na aldeia, quase num ultimo suspiro, nao da alma mas do corpo, encostou ainda no lusco fusco, na paragem da carreira.
Fino, melhor esperto, pois no meio da agonia ainda teve o faro de que ali chegava uma carrinha que tanta barriga enchia, sem um olhar de caridade. Tal houvera, sorte a dele, mas de tal nao era membro.
Chegou a apitar, descarregou e arrancou, ele ali jamais ia caber naquela coisa de gentes, mas porventura e com esperanca, ao lado existe um caixote, do lixo, claro e quem sabe se alguma coisa aprouvesse. Tivera genica para tal.
Cai a noite e mais que esmorecido, recorda num lampejo os fulgores de outrora, tempos em que dominava a serra, os rebanhos e guardava de igual modo o respeito ao patrao, o mesmo que ele lhe dava e devia
Tivera a sua prole bem cuidada, aventureira e audaz, temido em terras galegas, mas as coisas nao correrrm a preceito.
Agora estava num povoado de gentes desconhecidas de caras, mas por ele e os seus ouvidas naquelas conversas da noite, nos montes e penedias, havera gente de bem, coisas tao fortes da vida que ainda bem que nao fala, pois aquilo que ouvia...
Como mataram o Joao do Alecrim com uma sachola e cujo pai andava com a sua mulher, os santos da Senhora pelo padre roubados e o gajo da pide que no coberto da noite inventava coisas sem a aldeia saber para os filhos de Lisboa pagaremn no xilindro...
Um bandido reles.   


Ia vindo com a Perpetua ate ao largo esperar os nossos pais que vinham de partilhar o celebrar na igreja, a missa do setimo dia da nora do Joao Alecrim. Era ele o Miseravel cao,testemunha por ouvir, mas sem poder intervir por nao falar e calar, que remedio. Foi na semana anterior a esta missa que ele chegou a S. Pedro, no inverso dos caminhos de Santiago do qual havia partido tantos e tantos dias antes, de Padron, Santiago de Compostela, no seu proposito de encontrar e conhecer o filho Farrusco, do qual ouvira falar encostado na sombra de um botequim, a uma cigana de nome Luzia, amante do Geraldes de Trancoso. Era um "peste" conhecida por alturas do S. Bartolomeu, traficante de tudo e de todos. Por tal este calvario, ia seguindo de vez em quando a pegadas do Geraldes, para nao perder o tino, sempre no maior cuidado, pois uma bala perdida do seu alcabuz, Deus nos acuda, mais ainda quando pressentiu que este se havia apercebido dos seus caminhos.
Adiante.
Por volta das nove, hora de acabar a missa, uma algazarra de caes a ladrar e latir para os lados da igreja, volume que vinha subindo em vertigem rumo ao largo aonde eu e a Perpetua haviamos chegado, quase no momento exato em que o Geraldes erguia a sua faca para finar o Miseravel.
Atrapalhado por da ma fama ser reconhecido, fugiu na noite escura.
E nos dois, canalha aventureira, conseguimos levar este bom cao ate ao patio da minha mae, quase de rastos.
Precisava de cuidados, principalmente comida e bebida e no outro dia se veria, mas o lugar estava ocupado...
Ali vivia o Farrusco!!!
Boa noite.

domingo, 30 de agosto de 2015

FAZ DOIS ANOS...

E a prenda vai para o meu inseparavel e fiel amigo "Farrusco"  que entretanto se escondeu na sombra de uma oliveira, olhando comovido o belo osso que teve de presente e feliz por ter tantos amigos.
Diz ele que tem culpa por trazermos poucas estorias, mas que tem um romance lindo que lhe foi ocupando o tempo, prometento que para o ano vem mostrar a sua prol, sendo que entretanto vai trazer coisas novas.
Nao chores, Farrusco! 



Bem hajam por aqui virem...

segunda-feira, 13 de julho de 2015

segunda-feira, 29 de junho de 2015

CARREIROS DA VIDA

Ainda bem que pouca gente vem ler, mal de mim o que seria, ao falar de  gente de outrora que embora tempo passado, no tempo entornardo, poventura  maldizente, fiquem em vos que sois gente, dauelas ainda capazes em guardar um segredo.
Chamado felicidade...

Tem um nome esta senhora: Raquel!
Rima com tudo, claro, na labuta ordenada, cuidada e mito sofrida
Nem queria fazer poesia, mas se tal for aqui vai
Tinha o seu gado, nem sequer era safado, apenas irreverente
Aquelas cbras de leite
Um deleite...no seu modo de tratar
Esta Senhora, Mulher
De alpercata ou chinelo
Duas vezes um homem velho
Duas vezes na idade
Metade do seu tamanho 
Coisas que ela media
De molhos de ervas carregada
Que pra si nao precisava
Eram pros animais
Iguais...
E descia...
Como descia ligeira e airosa a tia Raquel
De tamancas
Sem sola, pudera
Que o caminho gastava
mesmo aquilo que ninguem dava
Mas...
Como ela cantava
E encantava na idade
(onde ela ia)
Desafiava o cuco e por demais
ma menina encantada
No meio de rosmaniais!
(pequena e singela homenagem a grandes da minha terra).

XicoAlmeida

segunda-feira, 15 de junho de 2015

QUANDO CHEGAS?

" ...um retrato  fiel do rude viver, fusao entre homem e terra... total comunhao com a natureza, com todas as alegrias e agruras que isso implica...".
Melhor seria  a singularidade da nossa uniao natural entre homens e bichos, tu vens para aqui, eu par o teu lado, transfigurados. 


Ainda bem que nao sabes ler, caso tal, Miguel Torga te iria moer a alma que sei que tens.
Se comigo te chateias por tres meses de ausencia, que direi eu?
Nem um ladrar sequer me chegou desse teu mundo, nu e segundo dizem, imundo. Cadelas...
Nao assentas porventura, mas cuidado que o tempo leva a loucura dos devaneios ou os devolve em dobrado.
Podias ter latido...
Pouco orgulho deve ter o Farrusco, coitado de tao nobre na sua postusura, esse sim...
Nao leves a mal o desafafo, apenas sofri com o teu silencio, pois sabes o quanto gosto de ti.
E sei... nada latistes, que estiveste a espreitar a morte aquando atacado por um cobarde canzarrao que te esganou e praticamente esventrou, useiro e vezeiro, mas, uma coisa certa e toda a gente me disse (menos tu...perdoado) que aquando a Virgem Peregrina de Fatima foi adorada na nossa aldeia, tu ali ficaste de plantao frente ao andor.
Dizem que de patas postas em recolhimento, cordato e silencioso.
Quando chego?
Para o mes que vem, tambem tenho saudades tuas, mas promete que desta vez falas comigo...





segunda-feira, 8 de junho de 2015

UMA KORA, UM MISTERIO..




Jamais um dia , pensaria que ia encontra uma  "coisa" destas que desconhecia em absoluto.
Aconteceu ontem.
Ali, na rua, ao estacionar o caro vindo das compras, estava majestoso junto a um contentor de residuos, "Isto".
Estranho pela singularidade da cabaca, suas cordas e por tal o fui guardar .
Olhei, perguntei e aguardei que alguem ...


Havia outrora aprendido um pouco de musica com cordas, mas este instrumento intrigava.
De tao belo e velho, mas que no seu tambor de pele, carregava historias e estorias.
Ajoelhei perante ele, tinha algo para dizer, ele a mim, que eu estava mudo  e apenas hoje abro a boca pelas pesquisas que fiz...  


Confesso que de noite tive medo por nao resistir em tocar "naquilo" que parecia mal, mas...
foram duas horas a fio...
"Ele" que o diga aqui ao lado e que o fui afinando naquelas suas oito cordas, ainda boas por sinal.
Que raio de coisa!


Agora, vou ver se nele tenho um tom para o fado...

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Transumância


O termo e originario do latim, e combina as palavras "trans", que significa alem, ou atraves, e "humus", equivalente a solo, terreno, pastagem.


Havia chegado o tempo de largar o rebanho, os fortes muros das serranias que me acoitavam tal como a outros aprendizes de pastores que por ali andavam por obrigados, mas lhes foram respeitando, ainda mais agora.
Tanta historia contada no sibilar do vento dos pinheiros, noite adentro, a maior parte das vezes para espantar o medo dos bichos e por tal falarmos em voz alta, como se estivessemos a leguas de distancia...
Doce o canto das madrugadoras cotovias, aquelas de poupa que rivalizavam com o balir do cabritito acabado de nascer, embalado pelo frenetico correr do ribeiro proximo para o moinho abaixo.
Entretanto a manha do ultimo dia ia alta, ou o sol subia ou a terra descia, mas o comboio iria a direito e em terra firme para a capital. E eu nele!



Sem silvas nem penedos, sem o piar da coruja nem o uivar do lobo, as altas penedias se haviam transformado em monstros de cimento e vidro.
O cantar dos grilos, jamais aqui seriam ouvidos, nem o berrar das vacas, aqui sufragados pelos carros que buzinavam, em festa ou desespero.
Mas no centro de Lisboa(1976), Sto. Antonio, qual policia sinaleiro (mais tarde vim a saber o que isso era...), recomendava calma e prudencia, vinha ali um rebanho... 




Cumplicente agora penso, na mensagem de que o mundo a seu modo, tem muito de igual...

sábado, 25 de abril de 2015

Retrato no negativo

Um chilrear de alegria
A tiracolo a sacoila
Macaca e jogo da bola
No bolso a fisga escondida
Que vista estava perdida
Pela senhora regente
Muito maior que a gente
Mas acho que era tola
Pior ainda perdida
Delirios na palmatoria
Por incapaz
De nao ver 
Que ao ensinar a ler
A gente ia aprender
Que o mundo a gente o faz
E por tal a preto e branco
Com sapato ou tamanco
Nunca arranjou um rapaz


Um choque ao ver esta foto que retrata a nossa infancia. Abandonada, tal como que pedindo e por tal obrigada, que dela nos desliguemos, afinal foi ela que nos acolheu por dever, depois nos alimentou e educou, depois...depois...depois fechou.
Por ali andei, puto mais feliz do mundo, eu e outra e outros, da direita as raparigas na de baixo os rapazes (criancas, enfim).
Fui roubar esta foto ao blog dos forninhenses, por ja ter volta e meia de modo critico, nao compreender a razao de tal espaco nao ser aproveitado como espaco museologico da nossa riqueza cultural, mas acima de tudo por hoje se comemorar o 25 de Abril.
Senti recordacao da minha escola primaria e ao mesmo tempo uma alegria estranha, pois a ultima vez que nela entrei, foi para fazer parte da mesa eleitoral nas primeiras eleicoes livres em Portugal.
Tinha dezoito anos.
Ali tinha cantado por obrigacao aos oito, olhando "aqueles" afixados na parede.
Dez anos depois, escrutinava gente livre no caderno eleitoral.
Hoje e passado tanto tempo, esse parou na mentecapto mania dos autarcas locais
A prova, um caixote de lixo como que aguardando os restos de memorias dignas...

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Visita pascal

Nao esta do meu agrado, falta qualquer coisa...


Sempre assim, todos os anos, tem o culto das flores e qualquer canto encanta.
Na visita pascal, prima por ter na mesa um vaso bonito, pois o Senhor vem...nem vale a pena perguntar se que ajuda pois resmunga "uma parte assim, era o que mais faltava, so tenho oitenta e cinco, menos...estou a ficar velha, uma parte assim,repete, mas o que ela quer eu sei, ficar sozinha com as suas maneiras.
A gente finge que vai embora e ouve o monologo "debaixo da oliveira, tenho lirios mais bonitos e aqui na varanda uns cravos a florir, pena as cravinetas bem medradas, estarem fechadas, faziam vista...". Atoalha esta bem engomada, podia meter outra, que tenho, mas sempre foi esta...
A gente finge que volta e pergunta se quer enfeitar a entrada do patio com rosmaninho e alecrim.
"Tenho tudo orientado, olhai para o canto do patio, folhas de lirios e alecrim florido, desses agarrado na parede, lembras Xico, o mesmo que o teu pai ao Domingo andava com ele atras da orelha, olha cheira...".
Raio de mulher que me comove sempre que fala do meu pai e ela sempre com um sorriso e um brilho nos olhos...
" Vinde ver a mesa, acho que nao envergonha o Sr,. Padre, pois nao?".
"Nao mae, esta linda, folar, bolos, queijo, frutas, amendoas ...".
"E o vinho, vai a adega e tira da cuba encosta a parede ou entao abre um garrafao do antigo".
Nao adianta discutir e ela olha ate tocar a campainha a anunciar a visita e o padre Ivan diz "a bencao para esta casa", beijamos a cruz, mas o olhar dela tem falta de qualquer coisa, um pequeno espaco vazio.
Tambem senti.  

terça-feira, 7 de abril de 2015

A Senhora Maria

Jamais resisti ao seu sorriso e simpatia. 
A vizinha que me viu nascer e a cada ano que por mim passa a vejo igual.
Sempre com esta tranquilidade que invejo... 

E por tal nem sei a idade, nem pergunto, mas imagino pelo tempo.
O raio desse tempo que nao para, mas mal a vi ao fundo do caminho no sabado antes de domingo de Pascoa, fiquei emocionado. Falamos um bocadinho que Ela vinha carregada e nao queria ajuda, apesar de vir assim de longe. Por gosto.
" Tao carregada, Tia Maria...".
" Que tu queres, se amanha, dia de pascoa, esta tudo enfeitado, as minhas galinhas e coelhos, tambem merecem, nem que seja flores de couves....".

Bem bonitas, por sinal e um beijinho, vizinha! 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Boa Pascoa

Cada qual a seu modo de ver... 



Tem o seu encanto 
Em modo de primavera
Um sorriso inocente
De lembrar quem era
Roupa nova a estrear
E a Jesus orar
Depois do jejum
Que a gente quebrava
No fingir dos pais
Que apercebidos
Do pecado mortal
Gritavam insurgidos
Para remediar
Mas...
Vinha a festa
Como a gente brilhava
No banho tomado
Ja sem alguidares
A missa cantada
Com a procissao
Alma engalanada
Barriga apertada
No correr travesso
De quem procurava
O que o forno tinha
O cabrito assado
Um manjar divino
De boca lambida
Tal como a bisca
Arisca...
Enquanto esperavam
A visita do padre
De mesa composta
Tudo bem disposto
E ele rezava
Deus esteja convosco.

sábado, 28 de março de 2015

COISAS MINHAS

Bora la puto... 


Gosto deste miudo,  ponto final!

O "gajo" tem pinta, dizem que sai ao pai, mas tem mais sensibilidade, procura com mais calma o seu caminho, diz que gosta de arqueologia.
Somos amigos e muitas vezes damos um abraco, forte.
Tem 16 anos e para o ano entra na universidade. Diz que me vai mostrar coisas novas e eu fico feliz por ele ter esperanca no futuro e acreditar.
Ha dias disse que aqui neste meu canto, tinha falado da irma Andreia (ciumes...) e dele e na sua linguagem, "nepia".
Sempre gostou que lhe escrevesse uns versos para levar para a escola e impressionar a turma.
Hoje apetece dar para ele umas rimas, mas...
Na foto, desafiante, olhando os seus olhos, fico intimidado.
Sei que me adora e lhe digo que,
" O mundo perdido
Tem por si somente
A mente da gente
Tal como castigo
Que ao longo do tempo
Nos corroi sarnento
Ate ao umbigo
Sem deixar palavras
E coisas de nadas
De quem nao escuta
Que a dor da ausencia
Tem a pertinencia 
Indolor
Da palavra amor
Esta semana vamos viajar, Puto! 

segunda-feira, 23 de março de 2015

O cheiro da pascoa descia dos montes

Havia que aquecer bem o forno para cozer os "bolos" e a canalha tinha de ajudar a apanhar as melhores urgueiras pelos montes, ainda floridas de roxo.
Nem era trabalho, pois a aventura era nas suas raizes encontramos as putigas sumarentas e peganhosas...


Mas por entre aventuras escondidas, a satisfacao reinava por termos com meia duzia de galhos, ajudado o tio Antonio Carau, a ter o forno a preceito,


Sempre um mestre, em tudo!


E iamos espreitando gulosos...



Caramba, como ficaram bonitos!

Tinhamos direito as amendoas, depois de tanto trabalho!!!

segunda-feira, 16 de março de 2015

Trova do tempo...


Mais de cem anos separados...


A minha avo Maria Lameira pergunta

Ao vento que passa
Noticias do seu pais
E o vento cala a desgraca
O vento nada lhe diz


A minha mae aguenta...

Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidao
Ha sempre alguem que resiste
Ha sempre alguem que diz nao 


A minha filha apela...

Mas ha sempre uma candeia
Dentro da propria desgraca
Ha sempre alguem que semeia
Cancoes no vento que passa

Bonita a Liberdade!

segunda-feira, 9 de março de 2015

O ZECA MATOU MEDOS...

E TANTO LUTOU CONTRA VAMPIROS...





Mal parecia gostar desta "gente" que cantava contra o "respeito" devido ao estado.
Ficava mal e era perigoso. Ainda...
Vim para Lisboa da aldeia, no período quente da Revolução. Nao fiquei atrapalhado, confesso, mas o trânsito e as avenidas...vinha apenas habituado a ruas com nome, claro de uma ou outra vila, que as da minha terra eram pela casa de fulano e cicrano.
Nunca ninguém se perdeu, convenhamos.
Guardo para mim ainda agora e com a mesma intensidade a maneira melodiosa com que foi  ocupando e sem querer substituir as cantigas de embalar da minha mãe, aquelas baladas quentes e conquistantes que ainda tal continuavam aquando o vi pela última vez em 83 no Coliseu, doente e um "monstro" de homem.


Fazes falta, camarada, companheiro.

VIVA O ZECA!

quinta-feira, 5 de março de 2015

Vou ali e volto...

Vens cheio de manias
Agora
Sem remorsos
Fostes embora sem me conhecer
Agora que voltas
Teu amigo Farrusco
Que contas, afinal
Aquelas que contas
Que era meu pai
Assim sem mais nada


Vou ali e volto
Talvez sinta o cheiro
Que aqui andou
De coisa contada
Boa e ruim
Volto daqui a nada
Espera por mim
Depois conta
Para mim...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Olha, Farrusco...

Olha Farrusco, um dia vamos ser presos por tantas tropelias.
Qual o que se nada fizemos, rosnou...
Pois nao, disse falando com ele...rafeiro de merda!


Tinhamos aprendido a dominar as galinhas e ganhar respeito invisivel da urbe local, temerosa pois a besta malefica andava sem cabresto, sapateando nas calcadas em busca de almas perdidas e quem pecados tinha, mijava nas camas de palha...o fim do mundo!
As pessoas tinham medo, muito por supersticao e acho que o Farrusco falava comigo ou eu com ele.
Uma dupla desnivelada pois se lhe nao desse comida, ainda hoje nao tinha estas atrites, seu mal agradecido!
Resmunga como quiseres tenho provas das tuas carracas, e de tantas doencas. Nao, raiva nunca tiveste, mas ...digamos, foste sempre um homem.
Fica quieto, pronto, afinal tenho culpa, dois tolinhos com saudades de coisas.
Contas tu ou conto eu...
Sim, ve a vergonha que comecamos nas galinhas e fomos por aqui a fora.
Fomos acima ao galinheiro do tio Luis. As galinhas andavam no choco e nao foras tu (parabens e obrigado) a crista de ouro tinha hoje um olho chincado!
Deus no perdoe pois mesmo assim roubamos ...ves que me desorientastes pois roubar e pecado...alguns ovos que escondemos. No nosso cantinho, claro!
Pela manha, o burburinho, fui roubado, fui roubado...do dono claro, pois a mae galinha aquecia sem por tal dar conta os ovos do ninho.
Agora abro a boca, foste tu Farrusco que nas palhas meteste meia duzia de seixos a fingir...
Havia que esconder a prova do crime e nada melhor que o ribeiro dos moncoes, ali ao lado, perigoso mas urgente.
A palha foste tu acarretar ao pateo do tio Esmael, roubada, claro, nao fossemos ladroes de corpo inteiro...
Mas um dia e quando a gente andava noutras aventuras, veio o milagre!
Havia patos a nadar no ribeiro...
Nos dois sabemos o que aconteceu, vamos para o nosso cantinho, anda la, rafeiro bonit..asqueroso!




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Vamos contar um conto...

Tinha tanta coisa naquela cabeca tonta de crianca, aventuras e desventuras que pensava que as podia escrever, embora escondido. Escondido pela malandrice, pois claro, feitas sem piedade e ainda por cima com o comparsa Farrusco, que me soltava a letra, mais a preceito que eu escrevia.
Boa dupla, um nem ladrava, rosnava, o outro nao escrevia, rasgava. 


Deixa Farrusco, ninguem sabe quem somos e tu ficas calado, por vezes acho que falas demais pois a partir de hoje vamos contar algumas das boas. Nao rias malandro...pior que eu!
Tu nao ajudavas nas tarefas maleficas, nao refiles, claro que ficavas de atalaia. Pronto!
Olha, vamos contar...
Daquela vez tinha caido um nevao la na aldeia. Melhor, continuava a cair e tinhamos mesmo assim de arreliar alguem e com as pessoas encolhidas em casa, nada melhor que o vizinho proximo e se melhor o pensamos, melhor o fizemos.
Para de me lamber Farrusco, parece que estas a reviver. Estamos velhos os dois, mas valeu a pena, caramba.
Enchemos e sem ninguem dar conta, na palheira um espantalho de palha que tinhamos roubado uns dias antes numa horta, com chapeu e tudo. O do meu pai e por ele paguei no lombo...
Nao te rias, rafeiro!
Colocamos o espantalho mesmo frente a porta de entrada do vizinho...ocultemos o nome, com um cordel amarrado aos pes, de modo a que um simples esticao o tombasse.
Era um daqueles dias de inverno, como poucos e o vizinho nem o galinheiro guardava, pudera as galinhas nao iam sair mas nos, como se tu fosses gente, enfim, podiamos la entrar e roubamos duas.
A neve ja nos chegava acima dos pes, patas para ti, nao te empertigues cao velho...
E chegou a coisa mais abominavel.
Ja tinha aprendido a colocar as galinhasa dormir, na boa.
Bastava embalar a senhora carinhosamente e levantar a asa direita e dentro dela enfiar a cabeca e depois, embalar, embalar...ja estava a sonhar com o galo...
Com a outra igual. Ambas deitadinhas na neve, mesmo em frente da porta de entrada do vizinho.
Farrusco, tu seguras o cordel e quando eu disser, puxas, agora vou atirar umas pedras na porta.
Tal foi. O dono abre a porta incomodado e ao ver as galinhas pensadas mortas, Deus nos acuda.
Tu Farrusco ficaste em euforia, parecia gostares e puxas o cordel e o nosso querido vizinho ao sentir que lhe vinha em cima um homem, desmaiou.
Ficamos por aqui e agora, Farrusco, pois se dissermos que veio o povo em peso...
Aquele nosso cantinho, ninguem descobre.