quarta-feira, 7 de maio de 2014

NASCENDO DA TERRA

Prometi voltar e ca estou, embora um pouco atrasado.
Por isso me penentencio, mas o blog dos forninhenses tem requerido mais atencao, por mais abrangente e serio em detrimento de coisas minhas.


Um periodo sabatico, que aquando a permanencia de uns dias em Forninhos por altura pascal, me revi na meninice de adolescente, tal como ainda hoje, a remexer a terra, ouvir o cuco e a poupa, o cavar a terra para a sementeira e nao resisti. Tinha de voltar aqui, afinal o inverno tinha emigrado, a horta da minha mae que ralha comigo do alto pulpito dos oitenta e quatro anitos, pedia a lavra, o motor de rega devia estar afinado e ate o tanque de rega devia estar preparado.
La fomos, o Luis e o Agostinho a abrir os regos de enxada na mao e eu e a Graca, a deitar geometricamente as batatas. A mesma familia que ela contrata para tratar das videiras, da azeitona e tudo mais. Mas a orientacao vem da minha mae Augusta.
Vim embora, depois de conviver com muita gente amiga, que ainda por la anda.
Vou ligando, mas quando apanho esta senhora ao telefone, vem ofegante e vaidosa da horta, da sua horta, pertinho do povo e bom caminho, uma das suas razoes de viver e manter a vida com energia.
Ontem perguntei como estava a horta.
Depois das batatas e com os morangueiros ja crescidos, na parte da manha havia semeado milho, plantado couves, tomateiros, cebolas e umas leiras de feijao. As batatas ja rebentavam e tinha que as esgadanhar.
Como ela diz, temos de semear e enquanto tiver pernas e a minha maneira, de manha, vou sachar semear e mondar, no fim da tarde para fugir ao calor, vou regar, ponho o motor a trabalhar e aquela agua nos pes, sinto que nasco outra vez. Tal como o fruto, diz ela.
Quando vieres vais ver como a horta esta bonita. Um regalo.
Claro que acredito!  

domingo, 5 de janeiro de 2014

BEM-HAJA EUSÉBIO


As lágrimas que ele chorou por Portugal, são as mesmas que o Povo Lusitano deixa soltar hoje por ele.

Partiu com a mesma humildade e recato como era a sua vida, em casa junto aos seus, de madrugada, como pretendendo não acordar os milhões que tanto o estimam.
Não tencionava aqui vir tão cedo, apenas em Abril, mas não ficaria bem comigo próprio não lhe prestar esta singela homenagem.
Convivi e partilhei momentos pessoais com o "Pantera Negra", apesar da diferença de idade; sempre um "Deus" no carinho e humildade e simultâneamente um "Gigante", um amigo e conselheiro que adorava o convívio com absoluto desprendimento.
Vivi com ele algumas histórias e nenhuma triste, que guardarei  e irei saboreando.
Tal como um dia no estádio do Estoril, num jogo convívio, e alinhando pela mesma equipa, a uma distância de quarenta metros ele me gritou "olha a bola miúdo" e a bola como por magia veio cair a um passo de mim.  
A sua mulher Flora e filhas que conheci miúdas, solidariedade neste momento de pesar.
Driblou a morte nestes últimos anos e não falhou o último, apenas era preciso noutro lugar.
Obrigado, Sr. Eusébio da Silva Ferreira.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

APENAS UM TEMPO...


Entre a festa de todos
E a que de todos devia ser

Este o tempo que mediará até voltar a este jovem espaço, ciente de que tentei enquadrar um um caminho e vivências pessoais, sem qualquer pretensão a não ser a partilha.
De tal não abdico, até pelo vosso carinho e força, apenas porque há que amadurecer ideias, menos bucólicas , no sentido de as narrar sem ferir susceptibilidades e de forma nobre.
"Parto" com o Natal do inverno e regressarei com a bela revolução dos Cravos na Primavera . Estará apenas em obras.
Até lá e como sempre, o meu coração, amor e carinho, continuará  numa das coisas que mais adoro: O Blog dos Forninhenses, essa sim a minha genuína casa, que a Paula fez o favor de construir e mostrar ao mundo e a qual tenho um orgulho imenso em habitar.
Portanto, beijos, abraços e até... e Festas Felizes, do Nascendo...

domingo, 24 de novembro de 2013

A VAREJA


" Verde foi meu nascimento, mas de luto me vesti, para dar a luz ao mundo, mil tormentos padeci!".

Afinal qual mãe a sentir as primeiras dores do parto...

Em tempos antigos...

E em tempos modernos, a tradição
Que a mão sábia, avalia e agradece                 
No amanhecer da noite mal dormida, não apenas pelo corpo dorido do cansaço, mas pela falta de tempo,  lá vinham os homens e mulheres "ao ganho" de mais um dia de vareja. à de fulano tal, não faltavam ano nenhum, eram bem tratados.
A minha mãe vai-me como de costume, avivando memórias gravadas da minha infância, como algumas que venho deixando no livro da minha terra: "o blog dos forninhenses". Obrigado mãe! A ela recorri sobre este tema da vareja. Acabando-se os míscaros, chega o tempo de ripar uma ou outra azeitona mais temporã para curtir na talha e que irá enfeitar os pratos na mesa durante todo o ano.
Mas o pessoal chegado para mais um "dia da azeitona", não podia ficar parado, já era Dezembro, o mês dela em Forninhos, mas podia prolongar-se a apanha até Janeiro,dependia do estado de maturação e do tempo. Com neve e neve durante dias, quem lá ia...
A minha família tinha oliveiras desde Valongo, Porto, Nogueiras, Olivais e até em Colheirinhas, aldeia pequenina sita a cerca de meia dúzia de quilómetros da minha aldeia.
Aqui vagamente recordo um dia ter acompanhado o "rancho" de gente. Quilómetros a pé, homens vestidos de samarras e mulheres de xaile tapando a cabeça e apertando os queixos. Eles com os toldos e varas às costas e elas com os canastros e cestas de verga à cabeça, mas todos gelados, o gelo e gelada resistia ao sol que começava a romper.
Na chegada a Colheirinhas, a primeira coisa era fazer a fogueira no olival, aquecer o corpo e despertar o espírito. Iam muitas raparigas que transformavam a tarefa árdua numa festa, para começar, faziam-se anunciar tocando desafiadoramente a sineta da pequena capela local. "Já chegamos!". Aliás, um dia, os da aldeia chatearam-se e tiraram a corda da sineta, mas as gaiatas com as varas da vareja virada ao contrário,  massacravam a sineta enquanto os homens davam verdoadas nas pernadas das oliveiras. Havia que fazer justiça ao ganho, eles varejar e elas apanhar e encestar a azeitona e entre todos volta e meia um pouquito de aguardente. Estendidos os toldos depois da vareja feita, faltava limpar a azeitona e metê-la em sacos de serapilheira, antes de chegar o carro de bois para as acarretar.
Findo o trabalho, havia que regressar novamente a  a pé até Forninhos. Tudo havia corrido bem, por isso à porta da nossa terra, no Carvalho da Cruz, armava-se o bailarico ao som do realejo.
Tinha acabado mais um dia "ao ganho, frio, suado e tão divertido.                                                 

domingo, 17 de novembro de 2013

Domingo de Outono na Cidade

Quando cai a tarde sobre a cidade, há sempre sol e há magia...
A magia de Outono, cujo frio que aparece e na distância da aldeia, nos leva a procurar "raízes" por entre espaços de betão avassaladores que à primeira vista nada transparecem do mundo rural.
Basta procurar entre um bairro pobre ou mais rico, e por lá ficou "esquecido" um pouco de nós! 







Hoje, pleno Outono, na minha terra, estas imagens são ainda porventura banais e Deus as guarde, quero crer.
Não resisti, máquina na mão, parti à descoberta na temperatura ainda duradoira do verão de S. Martinho. Era a saudade a dizer: "Vai-te saciar". E fui...
Encontrei mais do que esperava, desligando do fundo da imensa cidade, flores da minha aldeia, a crescerem  num monte citadino. Estranhei, afinal ainda não havia plano urbanístico, ainda bem, digo, se calhar já lá não estavam.
Delícia o Sr. José (nome fictício) que me pediu para não o fotografar; a televisão já ali tinha andado...
Muita conversa e ficamos amigos, podia tirar fotos às ovelhas e contou histórias, ricas de um homem já pouco novo, mas rico de sabedoria e ficou o convite para ir a casa dele.
Na cidade está a moda da agricultura, mas os amigos Cabo-Verdianos foram pioneiros por necessidade e orgulho. Bem-hajam camaradas. 
Não dou nome ao Senhor por não o ter pedido e falta de intimidade, mas ficou a semente traduzida aquando lhe perguntei como iria crescer a horta sem água. Apenas olhou para o céu e disse: " Vem de cima"! Palavras para quê...
O pastor disse: "...quando quiser um borrego, diga...".
O hortelão pediu: "... quando quiser batatas, diga...".
Senti-me em casa!!!
Belo domingo de Outono, ganhei dois bons amigos e a minha terra, Forninhos, ficou tão perto...

Nota: Ofereço a 4.ª foto à amiga Chica do "Céus e Palavras".

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

SALTAR NO TEMPO...

Aguiar da Beira. Pelourinho, torre e fonte. 

Na surdina, esta imagem trás consigo coisas muito reais, boas e más na recordação.
A contraposição de tempos, ideologias e carácteres, pior, diria, imposicões.
Quem como eu vinha ao fim de alguns anos de um moderno seminário alemão, vê-se de um momento para o outro e com todo o respeito, remetido ao único local de ensino, condigno e acessível da zona, apesar de o poder civil se submeter à obrigatoriedade da igreja. Mais do mesmo, diria!
Pensei que não me iria afectar, errado!
Este mundo era diferente pela liberdade que aqui e ali, quebrando as "imposições" de seminarista, sós e sem "polícias", a liberdade abundava e até se podia namoriscar, à vista e claro "sem pecado".
A integração foi acontecendo, sabe Deus...Nem sabia dançar, melhor, não estava à vontade...apesar de vontade não faltar, havia que ganhar coragem, conseguido com o tempo.
O que me ia salvando, eram alguns rumores de escritos meus, na clandestinidade e ainda no seminário contra a ditadura, davam algum respeito: "cuidado com o gajo!".
A minha defesa que ainda hoje honro, apesar de um ou outro dissabor, com nomes deste e daqueles, mas...

25 de Abril de 1974

Grândola vila morena...  A Revolução dos Cravos!
Valeu a pena esperar e participar, mas Deus tenha perdão, o ar apoplético do Pide do colégio quanto todos gritavam, "desanda filho da mãe, somos livres!".
Claro que desandou...
No 1º. de Maio, já estava em Lisboa  a cantar. Pena as flores irem esmorecendo...